Se você pudesse mudar alguma coisa sobre como foi criada, o que mudaria?

Se você pudesse mudar alguma coisa sobre como foi criada, o que mudaria?

Eu vi esta pergunta em uma revista on line e ela me fez pensar, pois tem uma coisa que me incomoda a vida toda e isso se deu na minha adolescência, mas com sérios reflexos sobre toda a minha existência.


 Minha mãe se apegava a verdades relativas que para ela se tornavam absolutas e uma delas era que a escola pública era melhor do que a escola particular, que a escola particular era para filhinhos de papai ou para quem não conseguia passar na escola pública. Isto era uma verdade no tempo dela, ou uma verdade parcial no tempo dela. Ela estudou no Colégio Pedro II, que era um colégio modelo na época dela e isso fez com que ela acreditasse que todos os colégios ou escolas públicas eram melhores que as particulares.
Enquanto eu estudei em Jaú (SP), eu frequentei um escola pública razoável, mas aos 15 anos minha família se mudou para Bauru (SP) e as escolas públicas em Bauru já estavam totalmente decadentes.
Embora minha mãe fosse médica, ela também era professora de Ciências no Estado e me matriculou em uma escola de periferia onde ela iria dar aula. Quase fui salva pela diretora de lá, mas ela não conseguiu, então posso dizer que fui parcialmente salva. A diretora, chamou minha mãe e disse que aquela escola, naquele bairro não era lugar para mim, pois ela não se iludia, os alunos dali não estavam sendo preparados para o vestibular ou para nenhuma carreira profissional futura, eram jovens da classe média baixa que tudo que esperavam na vida era um emprego no comércio ou em alguma indústria, mas também havia o problema dos alunos que estavam metidos com drogas e traficantes, o que na época significava que fumavam maconha, vez que o crack ainda não existia e a cocaína era droga dos ricos e famosos. Minha mãe argumentava que ela tinha estudado em escola pública e tinha se dado bem na vida, além do mais ela era professora na escola pública e ela acreditava no que ela fazia, então por que não poderia acreditar que era o melhor para mim? De tanto a diretora insistir, ela me colocou em uma escola pública em um bairro melhor, mas ainda assim decadente.

Meu pai era o tipo do sujeito boa praça, que lembrava muito Vinicius de Moraes, mas que não queria se envolver. O que minha mãe dizia e fazia, para ele estava feito. Então eu não podia contar com ele para ter um presente ou um futuro melhor.

Se você pudesse mudar alguma coisa sobre como foi criada, o que mudaria?


Hoje o problema das escolas públicas é imenso, mas no meu tempo os problemas já existiam, pois alguns dos professores já estavam próximos da aposentadoria e, dois deles, eram alcoólatras. A diretora fazia vista grossa para as faltas de ambos os professores, um de Matemática e o outro de Física, pois se compadecia com a situação calamitosa deles, e via que logo o problema seria resolvido com a aposentaria de ambos, então não os advertia e nem abria um sindicância administrativa contra eles. Resumo da ópera: eu passei três anos sem aulas de Matemática e nem de Física. Eu e minha turma ficávamos conversando numa pracinha que tinha na frente do colégio!
Não bastasse o problema dos dois alcoólatras, tinha uma professora de Geografia que tinha um filho atrás do outro, ela sempre estava com a barriga imensa, cada vez que ela se afastava devido a licença maternidade, não tinha outra professora para substituí-la, ou até que esta substituta chegasse já tinha se passado um tempo considerável! Desta forma lá se foi a minha formação em Geografia também.
Minha turma de escola era composta de, mais ou menos, 35 alunos, destes, além de mim, só mais três cursaram faculdade, até porque, a maioria dos alunos que estavam naquela escola, foram colocados lá por não conseguirem passar nas escolas particulares, e lá não reprovava ninguém. Aquilo era quase um depósito de alunos problemáticos!
Tive problemas para passar no vestibular, é lógico, e tenho problemas até hoje, pois minha educação básica ficou cheia de buracos, como um queijo suíço!!!
Quando minha filha era pequena, eu ganhava pouco, mas tinha pavor que o que aconteceu comigo viesse a acontecer com ela. Por muitos anos morei com minha mãe para poder pagar uma boa escola para ela, para que ela pudesse ter o que eu não tive.

Se eu pudesse mudar alguma coisa na maneira que fui criada, eu me daria uma educação formal melhor.

Disto tudo ficam lições e dicas: dê a melhor formação básica que você puder para os seus filhos, pois tempo e aprendizado é algo que não se recupera!
Mais uma lição: Se questione o tempo todo. Não é porque algo foi bom para você, que vai ser bom para seus filhos ou para os outros. O mundo muda, os conceitos mudam e se você não souber acompanhar as mudanças pode se prejudicar ou pior do que isto, prejudicar às pessoas que dependem de você.

 E você, se você pudesse mudar alguma coisa sobre como foi criada, o que mudaria?


Fotos: Nathan Dumlao e Element5 Digital via Unsplash

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Betty Gaeta

Gosto Disto foi criado por Betty Gaeta, publicitária, advogada e blogueira, de Bauru - SP, para falar de moda, beleza, comportamento, viagens, decoração, filmes e tudo o que se refira ao universo feminino.

21 comentários:

  1. acredito que a gente sempre gostaria de ter mudado algo na nossa criação né, mas podemos tentar mudar nossa realidade depois de adultos sim

    www.tofucolorido.com.br
    https://www.instagram.com/liviaalli/

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    1. Base de ensino é muito difícil recuperar, até hoje estou na luta, vivo estudando.
      Beijos

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  2. na minha criação não mudaria nada não, porque tudo o que os meus pais me ensinaram eu pratico no dia a dia.

    Um beijo,

    www.purestyle.com.br

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    1. Eu tinha uma amiga,chamada Lenita, que dizia amesma coisa. São pessoas de sorte.
      Beijos

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  3. Betty
    Cada cabeça uma sentença. O que mudaria na minha educação? A educação não foi 1000, claro! Mas, creio que não mudaria muita coisa na educação deles. Eu sim, que mudaria algumas atitudes e opções minhas, quando me tornei adulta.
    Bjos, gata!

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    1. Se eu fosse falar de algumas coisas que fiz depois de adulta e que gostaria de mudar, daria um livro rsrsrs mas daí a coisa já corria por minha conta e risco.
      Beijos

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  4. Nossa, Betty, pergunta difícil!
    Mudaria tudo...
    Minha infância e adolescência foram difíceis demais, violência doméstica, pobreza, solidão...
    Uma luta pela sobrevivência e para fugir da crença familiar de que mulheres não deveriam estudar, só serviam para casar e gerar filhos.
    Estudei em escolas públicas a vida toda, comecei a trabalhar aos 12 anos, sofri para entrar na USP, mas consegui.
    Virei a página, faço o que gosto, sou muito bem sucedida, casei com um homem muito legal com quem estou há 35 anos, mas algumas feridas sempre nos acompanham...
    Bjs

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    1. Oi Cris,
      As feridas fazem parte da vida das guerreiras vencedoras e você é uma delas. Deve ostentá-las com muito orgulho!
      Beijos

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    2. Sim...Nossas feridas são nossas condecorações de batalha!
      Sinal que somos maiores do que o que nos feriu.
      Bjs

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  5. Olá Betty, interessante essa colocação sobre o nosso passado e a forma como fomos criados. Minha mãe era muito aberta para certos assuntos (falo nela pois foi ela que nos criou, meu pai só trabalhava) mas imensamente castradora em outros. Nos dava muita liberdade mas nos podava tb. Se eu pudesse fazer com que isso mudasse, faria com que a minha criação tivesse sido mais equilibrada. Umas palavras de encorajamento e de orgulho também poderiam ter me tornado mais confiante. Hoje dou total liberdade aos meus filhos. Se der errado, vou lá e junto os cacos. Mas não podo, não limito nem proíbo e digo a eles o quanto sou grata por os ter e os admiro. Nunca ouvi isso nem de pai nem de mãe! Beijos, aprendamos a viver com nossos fantasmas!!!

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    1. Oi Val,
      Não são fantasmas, são vivências e fazem parte. Minha mãe também era muito castradora e meu pai totalmente omisso, mas vejo que ela foi criada por minha avó que também era castradora, mas que era uma mulher que rasgou couro com os dentes, pois criou minha mãe e minha tia sozinha, vez que meu avô a abandonou, e formou minha tinha em engenharia e minha mãe em medicina. Se isso é difícil nos dias de hoje, imagine no tempo delas?!?
      Acho que mães castradoras fazer uma dupla e tanto com pais omissos.
      Beijos

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  6. Gostei imenso do que li. Gostei demais. eu também andei numa escola pública, e trabalhei como professora numa escola pública, mas de escola para escola as diferenças podem ser muitas e causarb problemas aos alunos. tenho três descebdebtes a trabalhar em escolas públicas e dão sempre o seu melhor. Enfim, os azares andan por aí, mas se voltasse a ser criança, iria sem qualquer receio para uma escola pública, muito embora sem saber o que daria.
    Muitas felicidades e obrigada pelas maravilhosas partilhas

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    1. Oi Hermínia,
      Que saudade! Por onde vc andava?
      As escolas públicas não vão bem no Braisl, ou ao menos a maioria não vai, pois existem exceções, mas me dá um alento ver que você ainda se dedica e acredita no que faz. Infelizmente dei azar na minha adolescência.
      Beijos

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  7. Não mudaria nada na criação dos meus pais. Estou satisfeita.
    Big Beijos,
    Lulu on the sky

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    1. Fico feliz por vc. Veja que a geraação mais nova é menos exigente, pois tiveram maiores oportunidades.
      Beijos

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  8. Gostei muito deste tópico. Atualmente tenho 28 anos e posso dizer que a mesma coisa aconteceu comigo, não por escolha dos meus pais.. mas essa experiência em escolas públicas me fez ter uma educação com muitas lacunas. Apesar disso sou graduada e terminando minha segunda pós-graduação.
    Respondendo a questão principal do seu post eu digo: minha relação com a religião
    minha mãe (sempre elas né, haha) sempre foi muito religiosa, protestante, e nos levava pra igreja desde pequenos... meu domingo a noite sempre era na igreja, eu demorei anos para perceber que o domingo a noite podia ser tantas coisas... tantas possibilidades de coisas a se fazer..
    sem contar todas as regras sociais e cobranças existentes em um meio cristão, os quais ainda estou lentamente afastando de mim, muitos incluindo julgamentos morais apenas por conta da pessoa não participar daquilo - e agora ironicamente eu não participo.
    enfim, obrigada pelo momento de reflexão =)

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    1. Eu não era muito cobrada por religião, mas vejo que até hj muitas famílias cobram muito de seus filhos. Meu marido era evangélico, ou tentou ser, até que nosso vizinho e amigo, entrou com tantas regras e cobranças que ele virou ateu!
      Hoje tem uma nova reflexão no blog, sobre lembranças boas da infância, se quiser comentar, será muito bem vinda.
      Beijos

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  9. Como criança tive uma vida cheia de amor, meu pai me levava a passear e ver montras (que eu adorava) minha mãe brincava comigo de casinha. Ambos liam para mim enquanto era um nico de gente e não sabia ler, penso que foi daí que ficou meu gosto por leitura. O que me arrependi mais tarde foi ter casado muito cedo o que me cortou minha vida académica, ainda tentei acabar mas naquele tempo "ser fadinha do lar" era o principal.

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    1. Oi Julia,
      Eu fui mãe cedo, mas pude contar com os meus pais para que minha vida acad~emica não fosse pelo ralo, mas até hj tenho seuelas de ter ficado 3 anos praticamente sem aulas importantes.
      Vc ainda consegue refazer sua vida acadêmica, acredite e siga em frente.
      Boa sorte.
      Beijos

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  10. Eu não mudaria nada, mas se pudesse pedir a Deus, gostaria que Ele tivesse "deixado" meu pai viver até que minha irmã e eu nos tornássemos adultas, pois com a partida dele, tive que alterar o rumo da minha vida, que aos 10 anos já havia traçado, se é que é possível traçar alguma coisa aos 10 anos. Mas tenho em minha mente que tudo teria sido diferente, se pudesse ter contado com ele na minha formação. bjs Laura

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    1. Oi Laura,
      Tem um post antigo aqui no blog que fala sobre as bifurcações no caminho da vida,não é totalmente o seu caso, pois vc não pode escolher, e o post fala sobre escolhas, mas de certa maneira fala sobre o "E se?"
      Dê uma olhadinha:
      https://www.gosto-disto.com/2015/08/bifurcacoes-no-caminho-da-vida-escolhas.html
      Beijos

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