A curva em U da felicidade e a felicidade tóxica

 

A curva em U da felicidade e a felicidade tóxica

É possível ser feliz? Eu estava assistindo ao programa Linhas Cruzadas, na TV Cultura com o Luiz Felipe Pondé e a Thaís Oyama, cujo tema era a Tirania da Felicidade e do Sucesso ( vou colocar o vídeo no final do post pois vale muito a pena assistir), e fiquei tão envolvida pelo tema que resolvi assistir mais uma vez. Eu me julgo uma pessoa medianamente feliz e já andei falando que sou feliz por compartimentos aqui no blog, acho que a maioria das pessoas não são felizes por inteiro, embora sejam felizes em alguns compartimentos de suas vidas.

Mas afinal, existe uma fórmula para ser feliz? Para ter sucesso na vida?  Segundo o Pondé, e muitos outros filósofos, essa fórmula não existe, muito embora os coaches preguem o contrário.

É coach mesmo ou está fazendo um bico?

Se não existe uma fórmula para ser feliz, existe uma fórmula para ser infeliz, e um grande passo atingir a infelicidade é cair na armadinha da obrigação de ser feliz ou bem sucedida na vida.

Muito se tem falado na felicidade tóxica nos últimos tempos, ou seja, aquela ostentação de felicidade nas redes sociais, em especial no instagram, de uma vida perfeita, com um punhado de frases clichês, fazendo as pessoas acreditarem que existem pessoas que são mais bonitas do que elas, que existem famílias mais perfeitas do que a sua, que são mais ricas, mais bem sucedidas profissionalmente, que sabem meditar melhor do que os demais e até mesmo cuidar da pele de uma maneira ideal. A comparação e a venda de uma perfeição inexistente leva as pessoas à ansiedade, ao desejo por ter aquilo que não precisam.

A felicidade tóxica nada mais é do que uma das piores faces da tiraria da felicidade.

A curva em U da felicidade e a felicidade tóxica

Uma das citações do Pondé foi sobre a curva em U da felicidade e eu fiquei curiosa o bastante para descobrir do que se tratava realmente a tal curva. Esta curva se deve a um estudo feito em 134 países pelo economista David Blanchflower (em co-autoria com Andrew Oswald), professor da universidade Dartmouth College, nos EUA, e ex-membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra.

Os pontos mais altos da nossa felicidade são no início da nossa vida e no final da mesma.

Quando somos crianças e jovens adultos, temos muita energia, muitos planos para o futuro, acreditamos que podemos mudar o mundo, ou, como se diz atualmente, queremos “deixar nossa marca no mundo”. Na juventude sempre planejamos ser alguém grande, alguém que vai ter uma história linda para contar aos netos ou mesmo em uma palestra em Harvard.

A medida em que chegamos aos 35 anos, até os 40, vamos nos dando conta que nem tudo que planejamos deu certo e a expectativa de fazer algo produtivo, algo que demonstre nosso valor, acaba gerando ansiedade. Nesta idade começa o início de nossa infelicidade.

A idade que o ser humano é mais infeliz, ou seja, que se encontra no fundo do U da curva da felicidade, é dos 45 aos 51 anos. Nessa idade você se dá conta que se não escreveu um livro com qualidade de “Crime e Castigo”, de Dostoievski, não vai escrever mais. Provavelmente a árvore que você plantou já morreu ou já tenha perdido de tal forma o significado que você já nem saiba onde ela foi plantada. Se você for casada já passou por problemas no casamento e sabe que nenhum relacionamento é maravilhoso como aquele mostrado nas redes sociais. Se tem filhos, eles já estão criando asas para voar e não dependem mais de você. Seu trabalho não é nenhuma maravilha. Enfim, você se dá conta que não é o Steve Jobs e nem vai ser, que é só uma pessoa comum, com uma vida medíocre no ponto mais baixo da curva.

Aquela virada que você sonhava que poderia dar em sua vida dos 30 aos 40 anos, você já sabe que não vai dar mais.

No caso das mulheres é um pouco pior, pois existe a menopausa e não tem como negar que o seu corpo está passando por transformações. Enquanto as transformações hormonais nos homens se dá de maneira gradativa, em nós mulheres os hormônios dão um tranco e lá vem as insônias, os calores, as oscilações de humor e todos aqueles sintomas nada agradáveis.

Até a infelicidade tem o seu lado bom, pois você não embarca mais em furadas, como abrir mão de um bom emprego achando que vai construir a empresa dos seus sonhos e que vai ficar milionária, você já sabe de suas limitações.

Também já sabe que o príncipe encantado não vai chegar em um cavalo branco, o que pode levar você a repensar se vale a pena ou não terminar com o seu casamento.

Você não vai fazer mais merda nesta fase de vida, baseada em frases clichês de coach barato como:

- Querer é poder.

- Mantenha o foco.

- Só se vive uma vez.

- O “não” você já tem.

- Nunca se sabe o dia de amanhã.

(e tantas outras mais)


 A boa notícia é que depois deste fundo do poço a sua visão de vida começa a melhorar. Você começa a aceitar que você não é a melhor mãe do mundo, que não é a esposa ideal, que não tem uma carreira de sucesso, que não é e nem vai ficar milionária, mas já começa a entender que isto pouco importa.

Dos 55 anos em diante você liga o foda-se e aprende a ser feliz com você mesma. Não tem foto de milionário na praia no instagram que faça você se culpar por estar em casa assistindo o programa do Luciano Huck na sua poltrona favorita. Uma pessoa madura dificilmente caí na armadilha da felicidade tóxica.

Foto freepik

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Betty Gaeta

Gosto Disto foi criado por Betty Gaeta, publicitária, advogada e blogueira, de Bauru - SP, para falar de moda, beleza, comportamento, viagens, decoração, filmes e tudo o que se refira ao universo feminino.

8 comentários:

  1. Adorei a reflexão, super válida nesse momento que vivemos a "Sociedade do Espetáculo" e menos a nossa própria experiência. As vezes falo para minha familia....Ei você sabe que te amo mesmo sem postar nas redes???" rimos porque normalmente falo isso após o dia do filho, dos namorados, ou outra data que chovem relacionamentos perfeitos na rede. Não desvalorizo quem precisa disso para se sentir bem, mas a cobrança em fazê-lo.

    Muita Luz e Paz!
    Abraços

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    1. Oi Adelaide,
      Começa a surgir uma necessidade de postar tudo! Há uma overdose de exposição de felicidasde sem fim que começa a irritar.
      Beijos

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  2. Adorei a reflexão Betty, e ando frustrada comigo mesma. Criei expectativas demais e estou bem na fase do U lá embaixo, espero que tudo melhore. Estou me esforçando.

    Big Beijos,
    Lulu on the sky

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    1. Oi Lulu,
      Pode acreditar que vai melhorar, pois sempre melhora e na verdade o ponto baixo do U é necessário, por incrível que pareça.
      Beijos

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  3. Oi Betty, eu adorei esse vídeo do Pondé, mas o seu post ficou super didático!
    Bem mais fácil de compreender.
    Estou na fase crescente do U, já passei dos 55...
    Então a gente foca no que faz sentido, no que dá alegria, deixa de querer ter razão para ser feliz...
    Ótima semana!
    Bjs

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    1. Õi Cris,
      Eu também estou na fase de ligar o "foda-se". Mais do que a idade, depois da terapia, eu aprendi que fiz o melhor possível e ainda faço.
      Beijos

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  4. Jane Quintela de Carvalho13 de maio de 2021 21:57

    Oi Betty... eu já liguei esse botão faz é tempo, e das redes sociais estou cada vez mais longe, acho que cada um sabe qual é a sua felicidade, sem coach nem filósofo ficar falando, isso também pra mim é um pé no saco. Outra coisa, tem gente que critica dia disso, dia daquilo, viagens e festas dos outros e não sai das redes sociais, acho que cada um tem que é que cuidar de sua vida e dos que estão ao seu redor e pronto, não precisa muito pra ser feliz.
    Beijosss!!!

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    1. Oi Jane,
      Eu acho que as redes sociais fazem o papel das colunas sociais que existiam nos jornais antigamente, só que agora quem divulga não é mais o colunista, mas sim a própria pessoa. Não tenho paciência para tanto, mas se isso faz a pessoa feliz, que siga em frente, só tem que ter em mente que está se expondo, então depois não pode reclamar. Mas isto é assunto para um outro post.
      Beijos

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