A banalização do luto e a falta de solidariedade

 

A banalização do luto e a falta de solidariedade

Estamos vivendo um período atípico para a humanidade, pois o número de mortos anunciados pelas mídias sociais, constantemente, deixou de ser uma tragédia e virou uma estatística banalizada pela constância. Se eu não me engano, a frase é de Camus, que a morte de um homem é uma tragédia, a morte de muitos é estatística.

A pandemia tem nos feito esquecer a dramaticidade da perda de vidas e aceitar as estatística das mortes, mas para quem vive a tragédia, não é bem assim, quem perde uma pessoa amada, na maioria das vezes não aceita o fato como um desígnio de Deus ou estatística.

O luto sempre foi guardado pela humanidade como uma forma de sentir a perda de uma pessoa e deixar o espírito dos que ficam se refazer, aceitar essa perda como algo trágico e irreversível, mas humano. Não somos animais para descartar nosso mortos e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Necessitamos do nosso período de luto, da nossa dor interna.

Mas os fatos estão estranhos e mesmo a mínima regra social do luto tem sido quebrada como se a dança do tik tok fosse mais importante do que as lágrimas de despedida.

Muita gente, que como eu, ainda teima em ver a dor humana dos que ficam depois que um ente querido se vai, ficou estarrecida com a atitude de alguns artistas, que se diziam amigos do Paulo Gustavo, que estavam acompanhando a sua agonia de não conseguir vencer a Covid e depois prantearam a sua morte trágica, só que esses artistas, não esperaram esfriar o corpo, sequer as lagrimas secarem, e horas depois de se dizerem sentidos com a morte da nossa Dona Hermínia, postaram dancinhas, piadas e outras bobagens, antes mesmo que o velório iniciasse. Paulo Gustavo tinha virado estatística até para quem se considerava seu amigo íntimo!

Isto não tem acontecido apenas com famosos, mas também com anônimos. Uma família amiga e próxima, tanto física quanto emocional da minha, perdeu um dos membros. Ele não morreu de Covid e sim de um mal súbito, mas devido à alta dos casos de Covid, acharam melhor não realizarem um velório. Pronto, a primeira quebra do luto se deu aí. Como se não bastasse, como alguns parentes vieram, mesmo sem ter velório, fizeram um churrasco para a família, menos de 24 horas depois da morte, não tocaram músicas alegres, mas riam ao ponto de chamar a atenção de todos os vizinhos, as piadas rolavam soltas, afinal no meio de tantas mortes, por que se importar com apenas mais uma?

Este tipo de comportamento insensível parece estar se tornando uma constante e na semana que passou, um amigo muito querido faleceu devido às sequelas da Covid, depois de várias semanas de internação. Seu irmão, acompanhou desesperado e junto com ele oramos muito, torcemos muito para que não ocorresse um desfecho trágico. Quem conhecia estes dois irmãos, muito unidos e queridos, se irmanou com eles e sofreu junto, chorou junto, mas algumas pessoas parecem ter se enquadrado no contexto do momento pandêmico que vivemos, e, deixando de lado todos às regras sociais, toda solidariedade humana, passaram a postar vídeos celebrando a vida como se uma pessoa querida não tivesse partido desde mundo!

Não devemos nos aglomerar, pois o Brasil ainda vive uma fase crítica, mas se você não conseguir sentir nada pelo seu semelhante, ao menos siga as regras de etiqueta e não esfregue na cara de quem está sofrendo a sua alegria!

Diante desta tragédia mundial, acredite que aqueles números apresentados pela imprensa não são apenas números, são pessoas que não verão mais seus semelhantes, que eram queridas por alguém, que farão falta e que acima de tudo não estariam mortas se não fosse a pandemia.

Não estou falando que você deve sofrer por todos os mortos, mas ter consciência de que eles existem e se solidarizar com aqueles cuja família você conhece pessoalmente, que de alguma forma são próximos a você.

Se a sua humanidade e consequente solidariedade já foram para o esgoto, então ao menos disfarce e siga as regras sociais respeitando quem está guardando luto.

Desculpe pelo texto mais duro e mais triste, mas ele foi e é necessário.


Foto de Pavel Pjatakov via Unsplash

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Betty Gaeta

Gosto Disto foi criado por Betty Gaeta, publicitária, advogada e blogueira, de Bauru - SP, para falar de moda, beleza, comportamento, viagens, decoração, filmes e tudo o que se refira ao universo feminino.

9 comentários:

  1. Betty, tens toda razão. Não podemos nunca nos acostumar e aceitar como NORMAL a perda de vidas equivalentes a vários aviões caindo( que causavam tantoa consternação) e hoje ,para tantos, apenas números . Que coisa triste! Não me acostumo! beijos, lindo fds, apesar de tanto acontecendo! chica

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    1. Oi Chica,
      No dia que nos acostumarmos é porque perdemos a empatia, a solidariedade.
      Beijos

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  2. Olá Betty, uma lástima o que está acontecendo no Brasil. Empatia e solidariedade são, mais do que nunca, precisas! Bjs e bom fim de semana. val

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    1. Oi Val,
      Aqui, temos a impressão que a doença está cada dia mais perto, pois as pessoas que conhecemos estão morrendo, estão sendo internadas. A sensação é que a doença pode entrar em nossa casa!
      Sem solidariedade vai ser difícil vencer esta doença.
      Beijos

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Jane Quintela de Carvalho6 de junho de 2021 11:22

    Oi Betty... é incrível o que estamos vendo e vivendo.
    O pior de tudo também é politizar as mortes, tenho até nojo de quem fica
    gritando aos quatro cantos dos responsáveis das mortes e no fim de semana
    se aglomera em churrascos e festas. Hipocrisia.
    Beijosss!!!

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    1. OIi Jane,
      Estou vivendo isso muito próximo, pois uma amiga faz festas de quinta à sábado na casa dela e quando a gente conversa com ela ela fala mal de quem faz festas e aglomera! Como assim? Ela mesma faz isso?!?
      Beijos

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  5. É uma dura realidade realmente, querida. O amor de muitos se esfriaria, já dizia a Bíblia.

    Boa semana!

    Jovem Jornalista
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    Até mais, Emerson Garcia

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